Páginas

Mostrando postagens com marcador Bate Papo Cultural. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bate Papo Cultural. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Bate Papo com a Escritora Clarissa Vilar


Olá pessoal!


Recentemente conheci a escritora Clarissa Martins Cortez Vilar e bastaram algumas conversas para decidir fazer essa entrevista com ela por aqui e apresentá-la a vocês.

A Clarissa é piauiense e também é formada em Psicologia. Já trabalhou como colunista em um portal local mas desde 2015 vem trilhando o seu caminho no universo das Letras. Tem dois livros publicados, De outro olhar do coração (lançado em 2015) e Saudades Reembolsáveis (lançado em 2019) e o terceiro está no ponto para o lançamento!

Além de adorar escrever, ela me contou que adora Fotografia, adora viajar e sempre que pode, se aprimora, através da participação de oficinas de Crônica, o seu gênero favorito, pelo Brasil.

Então, bora para a entrevista!

Clarissa, o que te levou a escrever e quando decidiu escrever profissionalmente? Por que? 

Desde o tempo do colégio eu gostava muito de matérias como Literatura, Redação e Inglês. Em 2012, depois de vencer uma crise pessoal, eu recomecei a escrever. A faculdade de Psicologia foi um período muito "fértil" de idéias, muito interessante e rico em conhecimento, o que ajudou a ter vários temas para as crônicas.

Que legal! E ser formada em Psicologia te ajuda a escrever?

Sim, pois ao aprofundar o estudo sobre o comportamento humano, obtive um repertório maior de temas para escrever. Como a maioria das crônicas que escrevo remetem ao pensamento e comportamento humano.

Sempre ficamos curiosos para saber sobre o processo criativo dos autores. Conte para nós sobre o seu processo criativo! Você mantém uma rotina de escrita? 

Eu sou uma leitora voraz de crônicas. É o meu gênero preferido. Sempre procuro estar atenta às notícias e vou fazendo anotações de idéias para textos. Às vezes o texto demora para ser escrito, outras vezes acabo mais rápido. O que importa no final é sempre procurar inspiração e praticar a escrita.

E como foi a experiência de escrever Saudades Reembolsáveis e De outro Olhar do Coração? 

De outro olhar do coração foi meu primeiro livro, em 2015. Contém crônicas e alguns poemas. Foram três anos de muito trabalho. Procurei mentorias com professores conhecidos, já que não era formada em Letras, o que me ajudou a ter segurança no que fazia. A recepção do livro foi muito boa, o que me encorajou a escrever o segundo. Saudades Reembolsáveis levou quatro anos para ficar pronto. Foi um período em que amadureci mais a arte da crônica.

De onde vem a sua inspiração? Do quê você se alimenta para escrever?

Me inspiro em cenas do cotidiano, filmes, livros. Leio hoje livros voltados para espiritualidade, biografias e crônicas. A vida real me interessa mais. 


Você estuda escrita? Que autores indicaria para quem deseja adquirir maior conhecimento na área? 

Já fiz quatro cursos presenciais em São Paulo. Nesse mês, fiz um curso on-line do Rubens Pez. Tive professores como Fabrício Carpinejar e Marcelo Rubens Paiva. Centros literários como Barco e Escrevedeira são locais excelente para os amantes da leitura. Pena que aqui em Teresina não tenha locais assim.  

(Pena mesmo!)

Que tipos de gêneros literários você pensa em explorar nos próximos trabalhos? 

O meu terceiro livro é uma estória ilustrada sobre a saúde mental, mais voltado para o público adolescente. O quarto livro será de crônicas também, e está em andamento. 
E estou escrevendo minha autobiografia, que espero um dia lançar.

Já queremos ler todos! Clarissa, percebe-se a dificuldade do autor brasileiro, especialmente o independente, de chegar aos leitores e ser aceito como uma obra que mereça divulgação e venda. Quais são as maiores dificuldades que você enfrenta no processo de apresentar o seu trabalho para o mercado regional e nacional? 

Há um certo tempo atrás eu achava que o brasileiro  lia pouco. Hoje discordo. Creio que dependendo do gênero, há sim público. Nem todo mundo gosta de crônicas, é verdade. Mas felizmente há exceções! E as redes sociais são um grande motor de divulgação do trabalho de novos ou consagrados escritores. É um trabalho lento que exige perseverança.

(E nós, bookstagramers estamos no apoio, trabalhando não só na divulgação, mas na conscientização dos colegas da importância do conhecimento do trabalho do autor nacional, principalmente o independente, e na valorização do seu trabalho no mercado!)

Nas nossas conversas, percebi que você guarda um carinho especial pela crônica. De onde vem a preferência? Qual o seu cronista favorito?

O que me encanta na crônica é sua versatilidade e alcance. A crônica foi feita para estar no rodapé do jornal, mas ela resistiu ao tempo. É popular, tem humor, tem poesia. Ela tem vizinhos como a prosa poética, o poema, o conto. Rapidamente se tornou meu gênero preferido de ler e escrever. Propõe uma conversa fiada mas ao mesmo tempo com ressignificação. É uma delícia para os sentidos.

(Concordo totalmente!)

Pra fechar, conte para nós sobre o curso de Crônica que você está promovendo! 


Será um curso de dois dias, via Zoom, com exercícios práticos e leitura de grandes cronistas. Será aberta a todos os interessados. Creio que será bem legal.


Tenho certeza que sim! Gente, eu adorei o papo com a Clarissa Vilar e já aviso aos Toquinhas que fiquem ligados, pois nós fechamos uma parceria mara e vêm novidade para vocês! Aguardem!


Beijos, 


Mariana Mendes💖












quinta-feira, 28 de maio de 2020

Toca da Leitura Entrevista...Camila Dornas!

Olá pessoal!

Esse mês conversei com uma das escritoras nacionais contemporâneas mais bacanas do universo Bookstagram, Camila Dornas. 




Camila mora em Brasília, é casada e é formada em Letras. É professora de inglês e tem trabalhos como tradutora. Aos 16 anos, publicou seu primeiro livro, A Linhagem, pela editora Novo Século e aos 18, seu segundo livro, Subconsciente (tem resenha dele no @tocadaleitura, inclusive). Sempre de bom humor, Camila se descreve como uma "viajante, amante de café e eventual assassina de personagens". 

Então, bora para o bate papo cultural do Toca!

1.    Camila, o que te levou a ser escritora e como adaptou sua rotina para a escrita? 

Sempre amei escrever. Os livros são um refúgio para quando as coisas ficam complicadas, e algo que sempre me trouxe alegria. Mas só decidi ser escritora por causa de uma professora que leu uma história minha e me incentivou a levar a escrita adiante. Hoje em dia, tento ter uma rotina bem definida. Escrevo pelo menos uma hora por dia, sem distrações.

2. Você estuda escrita? Que livro você indicaria para quem quer começar a escrever?

Estudo sempre. Acho que é uma parte essencial do trabalho como escritor e algo muito importante pra se aprimorar. Um livro que mudou a minha vida foi “Sobre a escrita” do Stephen King.

3.    Qual livro te deu mais trabalho para escrever? É qual fluiu mais facilmente? Por que?

O livro mais trabalhoso que já escrevi foi Paraísos Selvagens. É um romance que se passa durante a Ditadura Militar no Brasil, e todo o trabalho de pesquisa foi extenso e complicado, pois tive que fazer entrevistas e me emocionei muito com todo o processo. O que fluiu mais facilmente foi O Violino Escarlate, meu lançamento de julho, porque foi uma história mais leve e mais gostosa de escrever.


4.    Alguns leitores reclamam que você mata personagens sem dó! Como lidar com os apegos e desapegos nesse universo?

Eu? Matar? Eu sou um anjo (haha)
Acho que quando a morte do personagem é necessária para o enredo é mais fácil, mas juro que me emociono com cada morte e gosto de dar finais felizes, apesar de todas as maldades que faço com eles durante a história.


5.    Os seus livros são marcados por personagens femininas fortes e bem posicionadas. Que mensagem você deseja passar ao seu público com elas? 

Quero que cada um dos meus leitores veja nas minhas personagens femininas uma fonte de inspiração. Espero que elas possam passar pra vocês que tudo é possível, se você acreditar e estiver disposta a lutar pelos seus sonhos. Nada me motiva mais a escrever do que mulheres independentes e incríveis.

6.    Se já recebeu, como lida com a crítica negativa? Já tem haters? Como lida?

Acho que nunca tive um hater, mas sempre há críticas. Geralmente encaro isso de maneira bem tranquila, pois acredito que é impossível um livro agradar a todos. Tem gente que odeia meu livro favorito, então se alguém não gosta de alguma de minhas obras, eu entendo e tento aprender com as críticas e focar nas pessoas que se apaixonaram pelas minhas histórias.

7. Muitas pessoas pensam que as personagens são facetas dos autores. O que você pensa sobre isso?

Acho que todos os personagens, principalmente os protagonistas, carregam em si um pouco do autor. É claro que há um limite pra isso, e os personagens são independentes e únicos. Um bom autor consegue criar personagens totalmente diferentes de si mesmo, e convencer o leitor que ele é quase real.

8. Como você trabalha a sua inspiração e criatividade e lida com bloqueios? 

Busco inspiração em tudo: filmes, livros, séries, histórias que observo e escuto, e, é claro, nas minhas próprias experiências. Quando bate o bloqueio, geralmente absorvo produções artísticas no estilo que quero escrever, tiro um tempo para relaxar, passo um tempo com o maridão, e aos poucos o bloqueio some.

9. Que autores/as você mais admira e por que? 

São tantos que é impossível escrever todos. Mas uma grande fonte de inspiração pra mim é o Mauricio Gomyde, um autor nacional de romances com uma narrativa que toca minha alma e diálogos imbatíveis. Também sou muito fã da Sarah J Maas pela construção de personagens impecáveis dela. Outros autores que admiro são: Renata Christiny, Samantha Holtz, Scott Fitzgerald, J.k Rowling e John Boyne.

10. Conte-nos sobre o seu recente lançamento e como está sendo a relação com a sua editora; o que mudou no seu trabalho a partir daí? 

Estou adorando trabalhar com a The Books. A emoção de ter 100 Canções para Salvar sua Vida em mãos é inexplicável, e mal posso esperar para vê-lo chegar na casa de vocês. Acho que o que mais muda com o lançamento por editora é o alcance do seu trabalho. Muita gente prefere ler o físico, e não dá pra negar que é maravilhoso poder cheirá-lo, tê-lo na estante haha. (Confesso que a capa de 100 canções é minha favorita.) Vou dar um spoiler: Tem mais um lançamento chegando em julho, O Violino Escarlate, e a capa está perfeita. 

(*A resenha de 100 Canções para Salvar sua Vida vai estar, em breve no @tocadaleitura! Aguardem! *)



Camila Dornas, muito obrigada por participar do Bate-Papo Cultural do Toca da Leitura! Fico muito feliz em poder mostrar mais do seu trabalho aos leitores da Toquinha!

Foi um prazer bater esse papo com você. Obrigada pela oportunidade e um beijo no coração de todos os leitores que vieram aqui me conhecer um pouquinho melhor. 💗



É isso, gente, espero que vocês tenham gostado da conversa. Fiquem atentos ao trabalho da Camila, porque é muito bom. Eu adorei a conversa, faz um tempão que a gente pensava em fazer esse bate papo e espero trazer outras novidades sobre o trabalho dela por aqui.

Um beijo, 


Mariana Mendes 💖






quinta-feira, 26 de março de 2020

Entrevista com o Escritor Eduardo Krause

Olá leitoras!


Esse mês temos um super bate papo com Eduardo Krause, autor dos maravilhosos Pasta Senza Vino e Brava Serena (ambos já foram resenhados no @tocadaleitura). 

Eduardo Krause nasceu em 1980, em Porto Alegre. Publicitário formado pela UFRGS, se mudou para a Itália em 2011, onde viveu por um ano e escreveu seu primeiro romance, lançado em 2014 pela editora Dublinense: Pasta Senza Vino, uma história deliciosa de amores e sabores ambientada entre Florença e Rio de Janeiro, e que já em 3ª edição. Com a ótima receptividade deste, em 2018 veio o 2º livro, também pela Dublinense: "Brava Serena", um tributo a Roma, aos vinhos e ao ator Marcello Mastroianni, estabelecendo a obra do autor como referência em literatura ítalo-brasileira. 

Além de papear sobre livros e a bela Itália, temos notícias em primeira mão sobre a futura adaptação cinematográfica de Brava Serena! 




1) Eduardo Krause, como você se tornou escritor?



Nunca quis ser escritor. Já quis ser chef de cozinha, designer, arquiteto, cineasta... se voltasse 10 anos no tempo e contasse pra mim mesmo que me tornaria um, jamais acreditaria. É tudo culpa daquele ano em que morei na Itália, quando em uma noite de 2011, após um jantar regado a muito vinho, fui atropelado pela história de Pasta Senza Vino e não tive outra opção senão pegar o laptop e começar a escrever, sentado na cama, para tentar pegar no sono. Adormeci com o laptop no colo. E quando acordei, nunca mais parei de escrever. 

2) O seu primeiro trabalho é ambientado na Itália, onde você viveu por um ano. Como a experiência ajudou no processo criativo do livro?




Como já disse, a Itália causou o despertar do escritor em mim. Na literatura médica, existe o chamado Mal de Stendhal, em homenagem ao famoso escritor francês. Em um de seus relatos de viagem, ele conta que, visitando Florença, justamente a cidade onde morei, ele teve vertigens diante de tanta arte e beleza. Gosto de dizer que tive esse mal. Mas em em vez de desmaiar, desatei a escrever. Não sei se é verdade, mas é chique de se dizer. E se tem uma coisa que aprendi com os italianos é que uma história não precisa ser verdadeira, desde que seja bem contada.

3) O seu personagem principal, Antonello, é um "marpione” – um especialista em cortejar mulheres - e ele usa isso inclusive para conseguir clientes para o restaurante onde trabalha. Um dia, porém, ele leva um senhor xeque-mate sentimental. Existe mesmo amor a primeira vista?


Existe. E falo com conhecimento de causa, pois me apaixonei à primeira vista pela Daniele, minha esposa. Sempre digo que lembro do instante em que coloquei os olhos nela pela primeira vez com tal riqueza de detalhes que parece que aconteceu ontem, apesar de já fazer 7 anos. Mas quando se trata de amor, valem todas as vistas, apesar dele ser notoriamente cego.


4) Pasta Senza Vino traz muitas expressões e palavras em italiano, que reforçam o cenário onde Antonello está e pertence. Como foi recriar uma ambientação italiana que fosse palatável ao leitor brasileiro? 

Esse é um cuidado que tenho sempre: utilizar expressões italianas que funcionem até para quem não fala italiano. Quando a frase é mais complexa, costumo deixar a tradução surgir na sequência do texto, de forma sutil. É um trabalho que requer atenção pra não cair no caricato. E mesmo não morando mais na Itália, assisto muitos filmes italianos, para manter a musicalidade da fala deles em minha mente.


5) Antonello tem sua carga de tragédias familiares mas ele vive de modo bem hedonista. E ainda assim, a medida em que a história avança, ele vai mostrando tantas facetas! Houve um muso inspirador para a composição do Antonello? Como foi o processo? 

Quase todos os meus personagens dos meus livros são inspirados em amigos ou parentes. Mas é engraçado que o Antonello não seja inspirado em ninguém. É um verdadeiro amigo imaginário. Nas primeiras versões, ele teve outros nomes, como Marcello e Giovanni. Até que um dia, passeando por Florença, vi um dos meus professores de italiano de mãos dadas com a recepcionista do curso. O nome desse professor era Antonello. Bianchi era a marca da minha bicicleta. Daí pra Antonello Bianchi foi inevitável.


6) Apesar da alegria interior de Antonello, o tempo lhe cobra um amadurecimento amargo...Você acredita que uma situação mal resolvida na vida possa dar um sabor ruim a vida inteira? 

Não diria sabor ruim. Diria só sabor. Porque é impossível viver sem amores ou dores mal resolvidas. A vida não se resolve nunca e quando a gente morrer não vai ter uma conclusão antes de sair de cena. Então por mais que certas histórias não tenham sido como a gente quis, acredito que é a vivência dessas tristezas que tornam as alegrias mais doces. Por isso que gosto de contar coisas engraçadas de maneira melancólica, e coisas melancólicas de maneira engraçada. Esse é o tempero da vida.


7) Uma vez, um sábio escritor disse: "Pasta senza vino è come un bacio senza amore." ("Massa sem vinho é como um beijo sem amor"). Queremos comentários a respeito desta máxima.

A primeira vez que vi essa frase foi na parede de uma tradicional casa de massas de Porto Alegre, muitos anos atrás. Então, quando fui pra Itália, essa era a única frase que eu sabia dizer em italiano. Lembro que, no primeiro dia de aula em Florença, o professor pediu para cada um escrever uma frase em italiano no quadro. A minha foi essa e acabei sendo lembrado por ela durante todo o curso. O fato é que tanto massa sem vinho quanto beijo sem amor também podem ser coisas muito boas. Mas a harmonização ideal, da massa e do beijo, é a que está contida na frase.


8) Leitores do Toca informam ao autor: queremos uma história de amor com uma musa chamada Daniele e queremos casamento na Toscana! Seremos, um dia, atendidos? 


Quem sabe? Quero escrever muitas histórias, sempre com essa temática ítalo-brasileira. Também tenho planos de escrever uma história sobre o Ótimo, meu cachorro. Quero escrever sobre tudo o que eu amo. O problema, talvez, de contar minha história com a Daniele, especialmente sobre nosso casamento na Itália, é que vai me faltar talento para expressar a beleza daqueles dias. 

9) Seus stories são fabulosos, embora você se incomode com a excentricidade deles, vez ou outra. O mar tecnológico açoita a criatividade dos bons autores ou dá pra conviver com algum charme? 

Adorei a pergunta, especialmente o "açoita". O Instagram é uma ferramenta divertida, boa para conhecer ou ser descoberto por leitores. Quanto aos stories, tento rir das minhas desventuras. No fim das contas, os que saem tortos ou errados acabam sendo meus maiores sucessos de público. Acho que as pessoas se identificam. 


10) Durante a leitura de Pasta Senza Vino, o leitor é atacado por imagens gastronômicas muito cruéis o que me fez lembrar de Frances Mayes, autora de Sol sob a Toscana, que compartilha receitas variadas, entre um momento ou outro de suas histórias. Afinal, podemos ter esperanças de que teremos uma receita krausiana de pasta? 


Gosto muito da Frances Mayes. Pra quem gosta dela e dos meus livros, também recomendo ler Marlena de Blasi, que tem uma temática semelhante, recheada de perfumes e sabores italianos. Também recomendo Elena Ferrante e Ítalo Calvino, italianos que gosto muito. Mas divago... respondendo a pergunta, tenho várias receitas que invento na hora e uso a Daniele como cobaia. Mas nunca parei pra anotar... taí, boa ideia: quando eu lançar meu livro krauseoculinário, dividirei os royalties com a corporação Toca da Leitura. 

11) E sobre a notícia do Brava Serena ser adaptado para o cinema, como você recebeu a notícia? Já existem planos para a adaptação? Imaginei a Deborah Nascimento como Serena, durante a leitura, mas sem pressão. Isso nem é sugestão, a sério. É só...um compartilhar imagético que vem ao caso.


"Tá de pé?". "Tô". "Então senta". Assim que começou a ligação do meu editor pra contar que Brava Serena estava tendo direitos negociados com uma produtora de cinema do Rio. Claro que já sonhei com isso, mas quando acontece é tão surreal que a gente nem sabe como comemorar. O que posso dizer é que envolveu muito vinho, por vários dias. Quanto ao projeto, recém está começando a roteirização. Então, ainda estamos na fase dos sonhos. Adorei a sugestão da Deborah Nascimento, ela tem olhos bem serenísticos. Mas, pessoalmente, acho que ainda não conheço a atriz que faria a Serena. Gosto de pensar que pode ser a grande estreia de alguém.

12) O olhar cinematográfico para as produções literárias brasileiras finalmente cai sobre uma obra mais contemporânea. Você enxerga nisso um potencial para que outras produtoras observem mais os novos autores? Será que Brava Serena vai influenciar esse movimento? 


O momento para a cultura no Brasil é recessivo, vivemos sob um governo que exalta a truculência e prefere tratar os meios acadêmicos e artísticos como gastos, não investimentos. Mas a produção cultural nunca para, por pior que seja o cenário. Novos artistas surgem o tempo todo e plataformas como Netflix e produtoras de cinema independentes despontam em busca de novos conteúdos. Sou otimista quanto a tudo isso, mas não sei se Brava Serena pode influenciar um movimento. Nem penso nisso. Só quero que esse projeto seja feito com o mesmo amor que coloquei na escrita do livro. O resto, surge ao natural. Acredito que a arte precisa vir de dentro antes de pensar lá fora.





Agradecemos ao Eduardo Krause pela gentileza da entrevista e material disponibilizado e torcemos para que Brava Serena chegue aos cinemas o mais brevemente possível! E que venham mais livros!!! 


Beijos, 

Mariana Mendes 💖

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Entrevista com Rui Cruz

Olá leitores!

Esse mês trago uma entrevista mara com uma estrela do stand up português!

Rui Cruz faz 34 anos no próximo Halloween. Esta entrevista rolou há dois anos, quando nos encontramos em Lisboa para um papo de 1 hora para este blog. O papo, que começou as 17hs, só acabou as 22hs e o blog, que deveria ter sido lançado há um ano, finalmente está no ar e vem trazer um pouco da história de um dos nomes mais bacanas do cenário de comédia e stand up português.

Cruz é comediante, roteirista e músico. Formou-se em Arqueologia e chegou a ter sociedade em uma empresa de arqueologia, onde descobriu, dentre outras coisas, uma pedra com arte rupestre protostórica da Idade do Bronze (Proto-História é o período do desenvolvimento da humanidade que precede o surgimento da escrita, mas que foi possível conhecer por ser descrito em algumas das primeiras fontes escritas; praticamente coincide com a Era dos Metais.). No entanto, a veia natural para o humor falou mais alto – ainda bem!

Toca: Como o humor acabou se tornando profissão?

R.C.: O humor sempre fez parte da minha vida. Meus pais são pessoas engraçadas e o humor está na minha vida desde criança. Aos 9 anos, comecei a escrever humor pra mim – o meu pai deu-me o livro “Sem Penas”¹ do Woody Allen e tão logo o li, comecei logo a escrever pequenos contos. Depois de já ter o curso de Arqueologia concluído, já contando com 25 anos e sendo sócio de uma empresa de arqueologia, me percebi cansado – não do trabalho com a arqueologia em si, mas da parte burocrática e da parte da corrupção que há no meio². Então, acabei fazendo um curso de escrita criativa que encontrei pela internet. Tirei 15 dias de férias da empresa e me dediquei a isto. Ao final, gostei tanto da experiência que dei-lhe a minha parte da empresa e comecei a fazer, do humor, um meio de vida. Estou na estrada há 7 anos...já passei tempos maus, já passei tempos bons, mas não trocava por nada. 

Rui Cruz em seu espetáculo Cego, Surdo e Mudo

Toca: Quem te influenciou mais, nesse processo de se tornar humorista?

R.C.: Eu tenho muitas influências de outros comediantes, como Bill Leaks e George Calin, que são, talvez, minhas melhores influências...mas também tenho muitas influências literárias e musicais, desde o Luís Pacheco, os livros e filmes de Woody Allen, Voltaire...e mesmo na música, Banda do Cavaco, Beatles, Type O Negative, com aquele humor sarcástico. Então, as minhas referências vêm de muitos lados, ao contrário da maior parte dos comediantes da minha geração, as minhas referências são mais espalhadas. Talvez por isso a minha comédia seja um bocado diferente do que fazem os meus contemporâneos.

Toca: E sobre as participações que você já fez?

R.C.: Fiz muitas participações...fiz uma com o Rui Sinel de Cordes, que é um comediante português bastante conhecido...escrevi quase todos os programas dele...e fiz participações com ele ao vivo, desde o espetáculo Anjos Negros, que é um trabalho que tive com ele e o Paulo Almeida (também humorista), e depois tenho participações na televisão...tenho feito coisas em todos os canais...escrevi textos humorísticos para muitos programas...programas de culinária, ou seja, participações já fiz em quase tudo.

Toca: (*risos*): E como é isto? Você diz qual o prato do dia vai ser mostrado no programa naquele dia?

R.C.: Sim! Escolho com o apresentador as receitas do programa e depois vou fazendo histórias para cada receita, pesquisando suas origens, ingredientes...

Toca: Quem diria?!

R.C: (*risos*). Nunca ninguém diz, não é?

Toca: Nos teus vídeos da série Tão Real que Dói – aliás, teremos continuação? - ...

R.C. Sim, deveremos voltar em Setembro, em princípio!

Toca: ...o seu gato é uma presença constante. Conte-nos sobre essa parceria.

R.C.: (*risos*) Epá, o meu gato é das coisas que mais gosto no mundo, mesmo. E depois, ele é buè camera friendly! Ele é muito fotogênico e muito bonito na câmera...e toda gente sabe que gatos dão likes. Logo, juntei o útil ao agradável, que é tornar o meu gato famoso – que acho que, em certo ponto, já é mais famoso do que eu - e levar likes pros vídeos. Teve uma miúda que mandou uma mensagem  a dizer que só via os vídeos para, no final, ver o gato.

Toca: Que adorável!

R. C.: (*risos*)...portanto, acho que tive uma boa jogada.

Toca: Eu achei que foi um highlight na vida dele quando ele sumiu, né? (Há mais ou menos um ano, o humorista lançou uma campanha desesperada na internet para que as pessoas o ajudassem a encontrar o gato que fugiu e aparentemente havia se perdido. Foram dois dias de buscas aflitas até que o fujão foi encontrado)

R.C.: Putz, aquilo foi um pânico! O pôster dele de “Procura-se” está colado na parede da minha sala. Foi uma busca aflita de 48 horas mas no fim, ele estava no telhado.

Toca: Como é o nome dele?

R.C.: Majin Thoth! Majin é porque ele tem o “M” na cabeça como o Boo do Dragon Ball, então ficou “Majin Boo” e “Thoth”, foi por causa da minha ex-namorada que foi quem o trouxe para me chatear, o apelidou com um nome egípcio que ainda por cima é um deus que sem sequer tem cara de gato, o que não faz sentido, é só parvo. Mas esse nome ficou giro, ele gosta do nome.

Toca: Sim, acho que combinou tanto com ele...ele é tão...

R.C.: ...”psicopata” é a palavra certa...

Toca: Ele tem uma dignidade, né?

R.C.: (*risos*) Como Hanibal Lecter!

Toca: O humor se relaciona com temas sérios? Como você trabalha a relação “Dizer coisas engraçadas” X “dizer o que as pessoas precisam ouvir”?

R.C.: Eu nunca penso naquilo que as pessoas precisam ouvir. Da parte da comédia, nunca. Eu faço aquilo que, normalmente, me faz rir e depois as pessoas ou gostam ou não gostam, eu nunca vou à procura de público. A arte, para mim, não é uma cena que vais atrás de fazer para agradar alguém. Arte é aquilo que vais fazer porque precisas fazer. É uma coisa tua. As pessoas gostam ou não. A partir do momento em que tu fazes, já com o resultado na cabeça, deixa de ser arte, passa a ser um negócio e eu nunca fui por aí. Agora, fazer comédia com coisas sérias...eu acho que só se deve fazer comédia com coisas sérias. A comédia tem muito dessa responsabilidade social, acho eu, de tirar o peso a coisas que já são pesadas e é isso que também chateia as pessoas, tirares o peso e a carga negativa a coisas que são próximas ou que lhe tocam, de alguma forma. Parece que, quando tu tiras peso de coisas negativas, tu estás a desrespeitar a situação e não, estás só a tirar peso. A vida é tão efêmera, nós andamos cá 80 anos, mais ou menos, é tão pouco tempo! Para que estar a pôr mais pensamentos negativos à cabeça quando tu podes brincar com eles e lidar com eles de modo mais fácil? É isso que eu penso quando faço a minha comédia. Muito da minha comédia é autobiográfica e psicológica – tem quase uma função terapêutica para mim, pois falo de muitas coisas como relações que acabaram, é uma maneira de expiar coisas que me enervam ou que eu não percebo, é minha válvula de escape. É bom quando alguém me ouve e se sente reconhecido ali. Desde criança, meus pontos de brincadeira foram coisas que, normalmente, não eram para brincar. É algo que está no sangue e acho que essa é a forma como eu me relaciono com o mundo. E acho que é importante fazer piadas com temas tabus, porque as vezes, não coisas que não se falam, por serem tabus, e quando tu brincas com eles, nem que tenhas uma recepção negativa, estás a trazê-los à tona. Às vezes, trazes a atenção das pessoas para coisas que elas não se lembram ou não falam e isso acaba sendo positivo, ainda que te traga ódio também.

Toca: Há um vídeo interessante onde respondes ao teu colega, Diogo Batáguas (humorista) que já te chamaram de “Conchita”. Rui Cruz é um homem vaidoso?

R.C.: (*gargalhada*)

Toca...há vídeos teus em que apareces com batom e vestidos.

R.C.: Sim! Já fui muito vaidoso, muito metrossexual. Maquiagem, sempre gostei, desde garoto. Meus pais sempre acharam piada ter um filho razoavelmente diferente. A roupa feminina é muito legal!

Toca: O humor negro é uma provocação? Quem é a tua audiência? Você a conhece?

R.C.: Eu conheço um bocado da minha audiência. Tem a turma que leva as coisas meio a sério...o meu humor varia do humor social ao humor negro – acho que sou o mais ácido dos comediantes e acho que sou, no palco, muito próximo do que sou na vida fora dele – sou sarcástico e acaba que o meu show acompanha o tom.

Toca: Eu não acho que seja tão ácido.

R.C.: Não achas?

Toca: Não.

R.C.: Mas sou ácido nas minhas observações e sou amargurado, vá. Sou aquele velho ranzinza que nós falamos a bocado...

Toca: Bom, vai ver o seu tipo de humor me soa mais familiar do que para as outras pessoas...


R.C.: Se calhar tu acabas sendo um bocado parecida comigo nesse aspecto e por isso tamos a dar bem, tás a ver? Quando sinto empatia, sou simpático, quando não, sou uma besta.

(P.S. Ele foi um doce de pessoa.)

Toca: Ainda sobre o público, como você percebe as pessoas que consomem o teu material?

R.C.: Tenho basicamente 3 tipos de público: aquele mais erudito, que gosta muito de ler, que gosta de boa música e acabam encontrando eco nas mesmas referências culturais que eu tenho; o bruto, que não percebem que uma piada de humor negro é só uma piada e acham que estou a justificar suas posições ofensivas, que é só ridículo e depois, tenho um público desajustado socialmente, pessoas como eu, que não se enquadram na sociedade, que não tem grupos específicos e que sentem que este mundo de aparências não faz sentido. O meu público é uma mistura destas três categorias.

Toca: Isso é curioso, porque são completamente diferentes e talvez, se interagissem, brigassem o tempo todo.

R.C.: Ah sim, isso acontece o tempo todo! 















Rui Cruz participando do programa Maluco Beleza


Toca: Porque algumas pessoas se sentem tão ofendidas com o humor negro? Há uma forma madura de lidar com as agruras sociais sem ofender ou não há essa preocupação específica no humor negro?

R.C.: Qualquer piada vai ofender alguém. Se eu fizer uma piada de loiras, as loiras ficarão ofendidas. O humor negro ofende mais porque foca em temas que são sensíveis: câncer, violações, AIDS, morte, tragédias. O que é que ofende? Ofende aquilo que é mais próximo de ti. Não é o tema em si, mas o que te é próximo. Agora, tens na internet movimentos de massa e consegues criar uma onda de respostas. Se és uma pessoa famosa e dizes que se ofendeu com determinada coisa, tens aí 100 pessoas que a seguem e que vão partir pra cima, muitas vezes sem nem saber direito o porquê.

Toca: No Brasil, alguns humoristas se viram obrigados a se desculpar por causa da repercussão negativa de algumas piadas ou tiveram projetos boicotados. Como lidar com a crítica que chega a este nível?


R.C.: Aqui em Portugal também já tivemos alguns problemas com humoristas. Eu sou apologista de nunca pedir desculpas. Nunca vou pedir desculpa por uma piada. Se a piada correu mal, correu mal. Nenhum artista faz isso. 

Toca: “Algumas questões”. O que te incomoda mais atualmente nos comportamentos ou no estilo de vida?

R.C.: A falta de referências é uma coisa que me assusta muito. Esta nova geração tem zero referências do passado, como se ele não existisse. Quando tens uma geração que não tem referência de passado, tudo  o que foi de mal vai voltar a acontecer e as próprias referências culturais são algo que me dão ataques de pânico. Eu penso “se isto existe é porque tem audiência e se tem audiência é porque há milhares de pessoas que acham que isto é legal”. Eu vivo em pânico e irritação quase 90% do tempo. A minha geração já começou a ser assim...acho que a geração anterior, a última grande geração de coragem, de força de vontade...a minha geração já começa a se queixar de tudo e a querer tudo de mão dada...

Acho assustadora a falta de cultura e o louvor à falta de cultura. No  meu tempo havia o burro da turma, que era um gajo popular mas toda gente sabia que era burro. As pessoas o achavam engraçado e só. Hoje o burro da escola é o gajo mais legal, é o gajo que diz “Nunca li um livro e não quero saber de política” e é aplaudido por isso. Hoje vais ao Twitter e vês garotos dizendo frases rasas e estas frases são retwitadas 40 mil vezes! E as garotas a dizerem que é com este tipo que querem se casar!

Toca: Formam um casal legal, o burro da escola e a garota desmiolada.

R.C.: Mas esses depois vão procriar e daqui a uns anos, temos o Idiocracy! (*risos*) Porque gente como nós não tem filhos e estes gajos têm uns 8 e lá está o Idiocracy! 

Toca: Você é uma pessoa que se incomoda com algumas questões da vida moderna...

R.C.: (*risos*) Todas!

Toca: “Algumas questões”. O que te incomoda mais atualmente nos comportamentos ou no estilo de vida?

R.C.: A falta de referências é uma coisa que me assusta muito. Esta nova geração tem zero referências do passado, como se ele não existisse. Quando tens uma geração que não tem referência de passado, tudo  o que foi de mal vai voltar a acontecer e as próprias referências culturais são algo que me dão ataques de pânico. Eu penso “se isto existe é porque tem audiência e se tem audiência é porque há milhares de pessoas que acham que isto é legal”. Eu vivo em pânico e irritação quase 90% do tempo. A minha geração já começou a ser assim...acho que a geração anterior, a última grande geração de coragem, de força de vontade...a minha geração já começa a se queixar de tudo e a querer tudo de mão dada...

Acho assustadora a falta de cultura e o louvor à falta de cultura. No  meu tempo havia o burro da turma, que era um gajo popular mas toda gente sabia que era burro. As pessoas o achavam engraçado e só. Hoje o burro da escola é o gajo mais legal, é o gajo que diz “Nunca li um livro e não quero saber de política” e é aplaudido por isso. 



Agradecemos ao Rui Cruz pela disponibilidade e gentileza em atender ao convite do Toca para essa entrevista, que aconteceu em Lisboa. Espero que vocês também tenham gostado da prosa!

Beijos,

Mariana Mendes 💖






¹ (“Without Feathers”, lançado no Brasil pela editora L&PM Pocket, com o título “Sem Plumas”. Trata-se de uma coleção de histórias curtas e duas peças, Morte e Deus. O autor traz neuroses, referências à psicanálise, versões humorísticas de histórias clássicas, obsessão com a morte e algum nonsense.)

² Existe, em Portugal, uma legislação que envolve a atuação da arqueologia, como movimentação de bens arqueológicos em território nacional, intervenções para edifícios tombados, etc e segundo alguns arqueólogos locais, as empresas são obrigadas a ter laudos de arqueologistas sobre a existência ou não de objetos arqueológicos, o que acaba encarecendo e tardando as obras. Assim, algumas empresas pagam propina para que o arqueólogo “não encontre nada” e elas possam fazer as obras mais rapidamente.