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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Dica Literária: As Aventuras da BLITZ!!!

Olá leitores deste Brasil ainda enclausurado!

Esse post é uma mistura de dica literária com Sintoniza!, porque trago, para o seu deleite, a história escrita de uma das bandas mais legais, criativas e duradouras do Brasil: Banda Blitz! 

O grupo foi formado na cidade do Rio de Janeiro em 1982, e originalmente composto por Evandro Mesquita (vocalista principal e guitarrista), Fernanda Abreu (backing vocal), Marcia Bulcão (backing vocal), Ricardo Barreto (guitarrista), Antônio Pedro Fortuna (baixista), Billy Forghieri (tecladista) e Lobão (que ficava na batera, mas que saiu da banda antes do estouro, para ficar explicado a sua ausência nas fotos mais famosas).

Primeiros shows: na cara e na coragem!
(Fonte: Google - As Aventuras da Blitz)

Com uma pegada jovem e trasbordando energia e criatividade, a Blitz foi uma das bandas que iniciaram a Era de Ouro do Rock Brasileiro. Ah, leitoresinhos...vocês precisavam ter visto essa galera se apresentando no Rock'n Rio de 1985!

Com músicas que transitavam entre relacionamentos e problemas cotidianos, sempre com muito humor e uma linguagem totalmente nova, a Blitz esbanjava  carisma, primeiramente na pessoa do seu vocalista, o eterno garoto, Evandro Mesquita. Mesquita era a personificação do garotão carioca, descolado e engraçado, que não estressa com absolutamente nada. As meninas que formavam o backing vocal eram as mais cool do cenário! Seus figurinos eram louquíssimos, suas maquiagens, a cara dos anos 1980 e os cabelos, o que havia de mais moderno nesse tempo.

Se tem uma galera que merece ser figurar em qualquer pesquisa obrigatória, seja de moda, seja de música ou antropologia social, é a Blitz. 
A formação que ganhou o Brasil! (Fonte Revista Crescer Notícias via Google) 

As meninas da Blitz, Márcia Bulcão e Fernanda Abreu,
no Rock'n Rio de 1985 (Fonte Google) 


Além de figurar nos principais programas de TV na época, a Blitz participou de várias trilhas sonoras de novelas da rede Globo (e Evandro Mesquita, que na juventude figurou no teatro com Regina Casé, Luís Fernando Guimarães e  Patrícia Travassos, por exemplo, acabou enveredando como ator em novelas e programas especiais, como A Grande Família). O sucesso foi tal que partes da letra da banda acabaram conquistando outros níveis de popularidade, como a famosa "Calma, Bete, Calma", que até hoje é usada em situações que extrapolam o ambiente musical. 



O livro As Aventuras da BLITZ, de autoria de Rodrigo Rodrigues é, antes de mais nada, um documentário histórico, especialmente para fãs e pesquisadores, com uma diagramação à altura da criatividade da Blitz e que vai trazer a história, os caminhos dos integrantes antes, durante e depois do sucesso, os efeitos da Blitz na música brasileira, os (vários) desafios que eles enfrentaram e - o que considero mais importante, o frescor de juventude e de uma espontaneidade muito saudável e sempre positiva, que marcou a cara da banda (e que acho que desapareceu depois dos anos 2000). Então, é uma leitura que agrada quem os conheceu e quem ainda não os conhece. Há muito material da banda pelo YouTube, então, agora é com você que, espero do fundo do coração, saiba amar a Blitz, porque ela merece! 








Beijos, 

Mariana Mendes 💖


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Um LIVRÃO chamado A Época da Inocência

Oi gente!

Bom, como eu dizia a você, no @tocadaleitura, A Época da Inocência retrata um tempo que nada tinha de inocente: a sociedade tinha os seus preconceitos, sabia castrar sentimentos e ações que considerava indevidas, sibilava fofocas que construíam ou destruíam reputações dia e noite e muita gente boa foi injustiçada e aprisionada em situações terriveis por não conseguir romper o cerco que lhes era imposto. 

Newland Archer e May Wallace são o símbolo do casal dos sonhos de sua época: ambos vem de boas famílias, são elegantes, equivalentes - bom, cumprem os seus papéis sociais. Nas passagens em que os dois conversam, fica evidente que Archer tolera a superficialidade dos pensamentos e compromissos da jovem noiva como se fosse algo natural de se esperar de uma mulher. 

May, por sua vez, é o fruto do ensino geracional de sua época: a jovem preparada para ser senhora de uma casa tão boa quanto é a de seus pais, esposa, mãe. Ela tem uma ingenuidade cativante e é doce de fazer cair os dentes. 

É nesse cenário perfeito que entra Ellen Olenksa, prima de May Wallace, que veio fugida da Europa, ou melhor, de um casamento cuja intimidade, mencionada rapidamente em diálogos entrecortados, parece absurdo e abusivo. Ela quer se aproximar da família - e não podia ter chegado em pior hora, uma vez que toda boa sociedade está com os olhos sobre os noivos maravilhosos e agora se deleita com a situação escandalosa da ex-condessa. 

Ellen procura, sem muito sucesso, um advogado que cuide do seu divórcio e para evitar que a situação se alongue, Archer acaba se aproximando de madame Olenska a fim de resolver as coisas o mais rápido e discretamente possível.

O problema é que Ellen está aliviada por se livrar do marido inconveniente e deslumbrada com recém nascida Manhattan, cuja modernidade e luz certamente acolherá uma mulher em sua situação. Porém a alta sociedade é sempre rápida e eficiente em mostrar a real situação de madame e é com tristeza resignada que Ellen assiste mulheres de boa reputação evitando sua companhia, famílias de grandes sobrenomes deixando-a de fora de suas listas de eventos sociais e homens de reputação duvidosa tentando se aproximar com a mesma rapidez que homens de boa reputação e/ou casados se afastam - e quando tentam quebrar esse ciclo cruel, só a expõem mais à difamação. Ellen Olenska está enclausurada.

Archer, que ainda consegue se indignar com injustiças do mundo, assiste a tudo sem saber bem o quê fazer, pois ele mesmo é parte dessa sociedade que sabe ser tão agradável e tão cruel. O desamparo sufocante de Ellen vai lhe torcendo o coração e quando dão conta, os dois estão mais envolvidos do que deveriam. 

No entanto, enquanto Ellen e Archer se digladiam entre o amor que sentem e o que ambos sabem que devem fazer, May Wallace, mostra como sua inocência é apenas uma parte da construção feminina ancestral que a blinda e a distingue de mulheres menos afortunadas. May, com toda maestria, espera o momento certo para atacar, sempre docemente, a honra e o caráter de seu torturado marido.  Ela detém as amarras sociais aceitáveis e assim, em silêncio, com doçura e muita sabedoria, perde uma ou outra batalha para ganhar a guerra. 

O livro, numa leitura contemporânea, serve para nos mostrar que o passado romântico é uma idealização que revela a própria inocência e/ou inabilidade de gerir o que acontece no presente. Vemos aqui e em tantos outros livros que as sociedades do passado também foram difíceis, cheias de hipocrisias, segredos, invejas, corrupções. Leia Shakespeare! Leia Os Miseráveis ou E o Vento Levou! Cada tempo e lugar teve sua cota de podridão e injustiças, não é verdade?

A Época da Inocência é um livro muito bem escrito, com uma história poderosa que nos dá uma amostra das dificuldades por que passava uma mulher numa sociedade que ela, inocentemente esperava acolhida - e que acolheu, quando ela se submeteu ao papel que lhe foi dado - nos mostra a importância de não criar ilusões sobre tempos passados (que talvez foram mais elegantes para uma pequena parcela) mas entender a própria capacidade de transformar a realidade, entender que ela pode ser modificada no presente, o que pode resultar em um futuro, quem sabe, mais decente. 

Martin Scorcese filmou A Época da Inocência na década de 1990, e afirmou que foi o filme mais violento que já havia feito. O elenco, com Daniel Day-Lewis, Winona Ryder e Michelle Pfeiffer, extraiu o brilho preciso das páginas de Edith (e eu lembro que passei uma semana chorando com aquele final, em mil novecentos e lalaland).

Recomendo muito a leitura e o filme de Scorcese. O primeiro, tem o selo LIVRÃO do Toca. O segundo, selo LENCINHOS KLENEEX do Toca. 


Beijos, 

Mariana Mendes 💖








quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Dica Literária: Os Catadores de Conchas, de Rosamunde Pilcher

Boa noite, gente! 

Os Catadores de Conchas foi a dica literária dessa semana, no insta do Toca, e aqui vamos estender a prosa um pouco mais. Também na seção Tricks and Tags, você vai encontrar questões, curiosidades e passagens interessantes para lançar no seu caderno de leituras, levantadas durante o encontro com o grupo de leitores e foi um momento muito rico. 

Esse foi o primeiro livro de Rosamunde Pilcher que li; foi uma escolha do Clube de Leitores da Livraria Leitura Teresina (o último antes da loja fechar, passar por reforma e reabrir, lindona) e por ser um livro imenso, confesso que fiquei meio apreensiva, pois estava com viagens agendadas e algumas leituras particulares em andamento. Mas como ele fluiu! Isso, pra mim, é um bom sinal: quando o livro é fisicamente enorme (e este é um tijolo) mas piscou, terminou a leitura! Dá aquele gostinho de "Já acabou? Como assim? " 

A história se passa em Londres e na Cornualha, da Segunda guerra até meados dos anos 1980, porque acompanha a vida presente e as memórias da personagem Penélope Keeling. 

Quando a conhecemos, ela é jovem e vive com seus pais em um lugar meio bucólico. Filha de pais artistas, sua criação é diferenciada em relação às famílias locais, o que lhe confere uma leveza de alma que beira a indiferença em muitas situações. As coisas se tornam complicadas quando a guerra estoura e ela precisa lidar com perdas, dificuldades de todas as formas, um casamento esquisito e a maternidade confusa. 

Entre os poucos bens que sobraram dos bons tempos está um quadro intitulado "Os Catadores de Conchas", pintado e deixado como herança por seu pai, Lawrence Stern, famoso pintor que viveu e morreu em Cornualha. Essa pintura guarda muitos símbolos para Penélope, mas o tempo passa e agora, seus filhos planejam vender o quadro que, atualmente, vale uma fortuna. Quando os filhos adultos de Penélope entram em cena, as coisas começam a ficar interessantes, pois o leitor se pergunta constantemente como alguém como ela, que precisou ser valente e acolhedora tantas vezes, e se mostra uma senhora tão calorosa, pode ter tido filhos tão horríveis. 

Nancy, a primogênita, tem dois filhos rebeldes e um marido ausente em todos os sentidos; Olívia é a mais bem sucedida entre os irmãos, mas tão indiferente quanto eles - e Noel é um rapaz bonito, bon vivant e ambicioso, que simplesmente não gosta de pegar no pesado mas não sabe exatamente o quê fazer da vida. Diante desse cenário, obviamente, rapinar o que a mãe tem de valor não parece má ideia. 

Penélope sabe que não foi uma mãe extraordinária e talvez por isso, ela prefira viver distante dos filhos, na velhice. Porém, quando dois jovens chegam em sua vida, Penélope começa, instintivamente, a buscar a cura para as culpas, através de ações redentoras e fechamento dos laços afetivos de sua família. Antônia, filha de um ex-namorado de Olívia que morreu inesperadamente, e Danus, um jardineiro trabalhador, com um passado meio misterioso, provocam em Penélope a necessidade de reparar, da melhor forma, os danos emocionais em seus filhos. 
Mas haverá tempo? Haverá espaço? Haverá disposição? 

Rosamunde Pilcher inunda o leitor com chás e gostosuras enquanto desfia o duelo de Penélope contra a perfídia de seus filhos - bom, de Noel e Nancy. E é uma passagem muito triste, ver que só boa vontade não basta para acertar os prumos de uma família que nunca aprendeu a amar. 

Eles se invejam, se cobram, se acusam e só se unem para tramar melhorias em benefício próprio. É claro que qualquer mãe sofreria com isso, mas Penélope mantém a serenidade. Ela corta na carne, sabendo que será mal interpretada, mas o faz com a consciência de que está fazendo o que é justo. 

E uma das grandes lições que tirei desse livro é que muitos de nossos sofrimentos são, de muitas formas, causados por nós mesmos. Como podemos ser tão mesquinhos, pequenos, imaturos, como perdemos a visão do bom caminho facilmente...

O leitor se aflige com os rumos dos filhos de Penélope, com sua pequenez de espírito, mas não é a toa que a autora sustenta a trama sem passes de mágica. As lições estão justamente aí. 

E uma mulher que viveu gloriosamente até os 94 anos, deve saber das coisas, não é? 




Beijos,

Mariana Mendes 💖




































terça-feira, 12 de novembro de 2019

Dica Literária: Frankenstein, de Mary Shelley


Olá Leitores!

Tivemos o encontro do Toca da Leitura, em clima de Halloween, na charmosa cafeteria Quitanda Santa Teresa, e o livro escolhido foi Frankenstein, de Mary Shelley. A minha edição é da Darkside, cuja introdução explica como a história se originou e algumas curiosidades, como as introduções de duas das primeiras edições da história, além daquela diagramação caprichadíssima. 

O livro começa com as cartas escritas pelo capitão Robert Walton para sua irmã Margareth enquanto ele está ao comando de uma expedição náutica no Pólo Norte. O navio fica preso no mar congelado e nesse momento, a tripulação avista uma criatura estranha viajando em um trenó puxado por cães. Logo depois, eles encontram e resgatam o doutor Victor Frankenstein. Assim, Victor passa a narrar sua história ao capitão Walton, que a reproduz nas cartas a irmã. 

Victor Frankenstein é um jovem estudioso, interessado pelas ciências naturais, que acaba desenvolvendo um interesse obsessivo pela alquimia e temas como eletricidade, matemática e os mistérios da criação. Victor, então, passa a se dedicar a um projeto secreto e, através de muita pesquisa, acaba encontrando o segredo da geração da vida, tornando-se capaz de animar matéria. 

De cara, sabemos que o projeto do Dr. Frankenstein tem 2,5 m de altura e é feito com partes de corpos roubados do cemitério (👀). Victor se torna obcecado com a criação de um ser humano, isolando-se e sacrificando sua saúde e após anos de tentativas, obtém sucesso. Porém...

“...mas agora que terminara, a beleza do sonho se desvaneceu, e meu coração estava repleto de desgosto e horror. Incapaz de suportar o aspecto do ser que criara, corri para fora do cômodo e continuei a andar...”

Pois é. Tomado pela ambição de gerar vida, Victor acaba cego à monstruosidade de sua criação enquanto trabalha nela e ao vê-la finalmente animada, é tomado por um horror tal que acaba fugindo e abandonando a criatura recém-criada. Encontrado por seu amigo Henry Clerval, Victor, exausto e doente, fica sob os  seus cuidados pelos meses seguintes.

Uma vez recuperado, Victor recebe uma carta de seu pai relatando o assassinato de William, o seu irmão mais novo. Ao chegar em Genebra, onde sua família mora, é informado que Justine, uma criada muito querida da casa dos Frankenstein, é acusada do crime. Porém Victor está convencido de que o verdadeiro culpado é a sua criatura. Justine, no entanto, é condenada à morte e Victor, preso ao terrível segredo de ter criado um monstro que provavelmente assassinou seu irmão, é consumido pela culpa e resolve se afastar dali.

Numa escalada pelo Mont Blanc, Victor é encontrado por sua criatura (👀), que é surpreendentemente articulada. O monstro conta sua história, narrando como fugiu do laboratório de Frankenstein para uma floresta próxima, onde precisou se virar sozinho. A narrativa do monstro é muito comovente e quase convence o leitor de que está diante de uma pobre vítima. Maaas tenha prudência, leitor, que esse não é o caso.
A criatura conta suas desventuras e tentativas de se aproximar dos seres humanos, tendo como resultado constante a repulsa e agressão. A criatura torna-se amargurada e resolve procurar seu criador e sua família.
Ao chegar em Genebra, guiado por um diário de seu criador, a criatura encontra o irmão mais novo de Victor, William, e acaba matando o garoto e incriminando Justine. A criatura, que aparentemente aceita a rejeição do criador, exige que Victor construa uma fêmea para ele e assim, ele viverá longe de todos, em paz.
Cheio de culpa mas contrariado, Victor concorda com o pedido. De volta a Genebra e esperançoso de que o pesadelo vai acabar, o cientista torna-se noivo de Elizabeth, e parte com seu amigo, Henry Clerval para a Inglaterra, a fim de cumprir a sua promessa.
Entretanto, ele muda de ideia ao ver sua nova criação, agora uma fêmea, tomando forma, temendo criar uma raça de monstros. Victor decide que ele tem que arcar com as consequências de seus atos e assim, destrói a criatura incompleta. 
Porém, o monstro testemunha o ato e jura se vingar, começando sua empreitada assassinando Henry Clerval. Abatido, Victor acaba se casando com Elizabeth mas na noite de núpcias, o monstro a ataca. Com a notícia da morte de Elizabeth, o pai de Victor adoece e morre em seguida.
Jurando vingança, o criador passa a perseguir a criatura, que o leva através de uma longa caçada em direção ao norte, seguindo pelos mares congelados, onde eventualmente são avistados pelo capitão Walton e sua tripulação. 
Uma vez resgatado e tendo contado sua infeliz história ao capitão, Victor, bastante doente, acaba morrendo. O capitão Walton, por sua vez, flagra a criatura no leito de morte de Victor Frankenstein, pranteando seu criador. Assustado, Walton ouve da criatura que seus crimes terminaram com a morte de Frankenstein, prometendo que dará paz aos seres humanos. 
Bom, aqui a gente começa a analisar a história sob algumas luzes.
Frankenstein é uma história complexa, considerando a época em que foi escrita e por quem foi escrita. Embora Mary Shelley tenha se esquivado de dar detalhes sobre ambientes e detalhes que provavelmente não conhecia com propriedade, como o laboratório de Victor Frankenstein, por exemplo, explora com maestria o duelo entre luz e sombra na caracterização dos personagens. 

Permita-me usar dois termos da Psicanálise de Jung, Sombra e Persona, para explorar esse duelo de claro-escuro; Sombra e Persona representam, respectivamente, aquilo que não seria socialmente aceitável e portanto fica escondido, muitas vezes inconscientemente, e a máscara que vai a público ou seja, a maneira como nos apresentamos. Podemos criar uma relação entre esses conceitos e a forma como Victor e sua criatura se complementam para entender nuances interessantes que Shelley criou.

Victor é um homem descontente, introspectivo mas que guarda um desejo gigantesco de ser reconhecido por algo grandioso, e que, de fato, acaba gerando, em segredo e por meios muito questionáveis, uma criatura marcada do início ao fim pela tragédia e pelo medo, uma vez que é privada da compaixão dos seres humanos desde seus primeiros minutos de vida. E aqui, a Sombra de Victor se concretiza na figura do monstro criado, ficando tão exposta que até ele mesmo se assusta e foge. 

E um detalhe importante de ser partilhado aqui é que a autora nunca chama a criatura de Frankenstein; essa denominação à criatura só viria a partir das adaptações cinematográficas, muitos e muitos anos depois, pelo entendimento geral de que a criatura seria uma espécie de "filho" de Victor e portanto, merecedor de ser identificado pelo sobrenome de família. Mas originalmente, nem nome a criatura recebe, durante toda a história! 

A criatura, com uma consciência parcial, utiliza-se da dinâmica de rejeição para se vingar de seu criador, Victor, que se sente culpado pelas mortes das pessoas que lhe são próximas. A lei máxima da alquimia se apresenta nessa relação cíclica da mortalidade: o cientista gera vida a partir da morte e, em troca, as vidas que tanto preza são tiradas de seu convívio. Quando Victor se apercebe dessa dinâmica, ele compreende que ambos terão que terminar juntos, possivelmente mortos e não mede esforços para caçar sua criatura, o companheiro por quem Victor tanto ansiava e que se mostra cruel, escapa do controle e age sem que ele perceba, vigiando-o, perseguindo-o e assassinando pessoas de seu afeto. 

É bem verdade que a autora nos leva a ter uma certa simpatia pela criatura; quando, por exemplo, ela descreve a sua perplexidade diante da própria imagem:

“[...] Nada sabia sobre minha criação e meu criador...[...] Além disso, era dotado de um físico hediondo e repelente. Eu nem sequer era da mesma natureza que o homem.”

“[...] E que terror senti quando me vi refletido numa poça d’água! A princípio, recuei assombrado, incapaz de crer que aquela era minha imagem e, quando me convenci de que era na realidade o monstro que sou, fui assaltado pelo desespero e senti-me extremamente mortificado.”

Porém, o buraco é mais embaixo. Temos outro ponto importante a considerar aqui: a criatura é impossibilitada de se utilizar de sua Persona para angariar simpatia e aceitação social, uma vez que seu aspecto físico interfere negativamente na leitura social dos indivíduos que vai encontrando. Barrado em seu direito de amar e ser amado, ele compreende que apenas com um ser de igual aspecto poderá se relacionar. Quando ele pede para que Victor crie um ser do sexo oposto, seu desejo é de que haja uma identificação recíproca, mas esse pedido, aparentemente justo, é uma armadilha para Victor: e se o monstro não for correspondido por essa fêmea? Terá que criar outra? E se houver entendimento entre os dois, o que poderá nascer dessa união? 

Considerando o pior cenário e as probabilidades terríveis do pedido, Victor desiste de dar  à sua criatura a coisa que ela mais deseja e esta, sem chance de mostrar seu interior generoso e terno, e agora, sem perspectiva de ter uma companheira, entrega-se à sua Sombra. A criatura assume a monstruosidade que os outros dizem que ele tem, uma vez que só enxergam a sua deformação e parte para a vingança. E aqui, percebemos a ardilosidade de suas ações, através da forma como ele encurrala Victor e o atrai para a morte. 

Essa lógica usada pela autora me fez lembrar muito da lógica usada em Joker, estrelado por Joaquin Phoenix recentemente. Quem já assistiu ao filme e leu Frankenstein vai encontrar algumas pontes interessantes. Não vou me espalhar muito por aqui, uma vez que o filme ainda se encontra em cartaz e muita gente ainda não assistiu, mas daqui a um tempo, vamos conversar sobre esse ponto, ok? 

Leitores, Frankenstein é, enfim, um romance sobre duas vidas arruinadas, uma vez que não encontram, nas provas sociais, um meio para chegarem à luz de seus desejos. É um LIVRÃO! Sugiro muito que o leiam.

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Um abraço e até a próxima!




Mariana Mendes 💖